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Sobriedade e solidariedade ou barbárie
observador.pt
Published 4 days ago

Sobriedade e solidariedade ou barbárie

observador.pt · Feb 19, 2026 · Collected from GDELT

Summary

Published: 20260219T013000Z

Full Article

Presidente da Associação Povo e Natureza do Barroso Sem redução drástica do consumo global de recursos e energia, a transição “verde” arrisca tornar-se apenas uma nova fase da mesma lógica extrativa — pintada de verde. 19 fev. 2026, 00:05 A promessa da transição dita “verde” vende-se como uma história de redenção: uma civilização industrial que destruiu o ambiente e o clima iria, finalmente, reinventar-se: energia limpa, tecnologia eficiente, crescimento sustentável. O sistema manter-se-ia — mas purificado. É uma narrativa sedutora, sem dúvida. Mas quando se olha para a matéria que sustenta essa promessa, a história começa a desfazer-se. Pois a chamada economia “verde” não é imaterial, não é virtual e não é limpa. É mineral.Carros elétricos, baterias, redes digitais, turbinas eólicas, painéis solares, centros de dados, redes elétricas inteligentes — tudo isto exige volumes colossais de recursos tais como cobre, lítio, níquel, cobalto, terras raras, grafite e muitos outros metais. Nunca, na história humana, uma transição energética exigiu extrair tanta matéria do subsolo. Segundo Guillaume Pitron, vamos consumir mais metais nos próximos dez anos do que o que consumimos nos últimos 70.000 anos!Extrair e explorar recursos significa escavar, triturar, lavar, dissolver, armazenar resíduos tóxicos. Significa consumir muita água, abrir crateras gigantescas em ecossistemas frágeis, acumular montanhas de rejeitados que permanecerão perigosos durante séculos. Em suma, significa mais poluição e destruição do ambiente que nos sustenta (ar, água, solos, comida…). Para nos incentivar a aceitar essa aberração, os poderosos deste mundo inventaram um conceito simpático: a “mineração verde” ! O problema é que a dita “mineração verde” é apenas uma fábula. Existe mineração mais ou menos regulada, mais ou menos eficiente, mas continua a ser mineração, com impactos devastadores inelutáveis.A narrativa de mineração “verde” está intimamente associada à ideia de um “capitalismo verde”, outro mito assente num paradoxo fundamental: manter o crescimento material infinito num planeta finito, apenas mudando as fontes de energia. Mas o problema não é apenas a energia. É o volume total cada vez mais gigantesco de matéria mobilizada pela economia.A transição energética está a reduzir emissões em alguns lugares, mas simultaneamente está a expandir a fronteira extrativa global. Em vez de abandonar a lógica da exploração intensiva, está a reconfigurá-la. Mudam-se os recursos estratégicos, mas não se muda a lógica. Criam-se novas geografias de sacrifício: desertos drenados para extrair lítio, florestas abertas para cobre, territórios inteiros transformados em zonas industriais de mineração.Em todos os continentes, a mineração já deixou um rasto contínuo de rios envenenados, aquíferos destruídos, terras agrícolas contaminadas e comunidades inteiras expostas a metais pesados durante gerações. Do Brasil ao Canadá, da Zâmbia à China, do Chile à Austrália, inclusive em Portugal (veja-se o caso das minas da Borralha, em Montalegre): milhões de toneladas de lama tóxica invadiram sistemas fluviais, barragens de rejeitados colapsaram, reservas de água potável tornaram se impróprias para consumo e ecossistemas inteiros foram transformados em zonas mortas. Não se trata de acidentes isolados, mas de um fenómeno estrutural, global e recorrente — uma pressão permanente sobre os sistemas vitais do planeta que liga diretamente a extração de recursos ao estado da água, da saúde humana e da estabilidade ecológica mundial.Num mundo onde recursos estratégicos se tornam vitais para a economia e para o poder geopolítico, a competição intensifica-se. O acesso a minerais críticos já influencia alianças, pressões diplomáticas e disputas territoriais. Quando recursos essenciais se tornam escassos e indispensáveis, o sistema torna-se mais competitivo e consequentemente, mais violento. Quanto maior a pressão sobre recursos finitos, maior a probabilidade de conflitos — económicos, sociais e militares. Muitos conflitos contemporâneos têm dimensões energéticas ou materiais profundas: controlo de reservas, rotas, abastecimento, dependência tecnológica.É aqui que a narrativa da transição “verde” revela o seu limite mais profundo. Ela propõe mudar as tecnologias sem mudar o modo de vida que exige expansão permanente. Propõe eficiência sem questionar a escala. Propõe substituição sem redução (Ouve algum político falar sobre poupança de energia e recursos?). Mas nenhuma tecnologia consegue tornar sustentável um nível de consumo material que excede em muito a capacidade regenerativa do planeta.A única solução estrutural não é tecnológica, é civilizacional: reduzir o metabolismo material da economia e consumir menos (muito menos) energia e recursos. E por outro lado, partilhar mais, reparar mais e localizar mais. Uma sociedade orientada pela sobriedade não é uma sociedade de privação, mas de suficiência. Não mede prosperidade pelo volume consumido, mas pela qualidade das relações, da saúde, do tempo disponível e da estabilidade ecológica. Porque num mundo de limites físicos reais, a competição ilimitada conduz inevitavelmente à violência, a solidariedade torna-se condição de sobrevivência coletiva, não apenas valor moral.A verdadeira alternativa não é entre petróleo ou lítio, entre carvão ou baterias. É entre uma sociedade fundada na expansão permanente e uma sociedade organizada dentro dos limites do planeta.A transição energética pode ser necessária, mas sozinha, não é solução. Sem redução drástica do consumo global de recursos e energia, a transição “verde” arrisca tornar-se apenas uma nova fase da mesma lógica extrativa — pintada de verde, mas alimentada pela mesma fome de crescimento.Finalmente, o desafio real não consiste apenas em descarbonizar o sistema atual, mas sim substituir o modelo de sociedade produtivista e expansionista por um modelo mais sóbrio e baseado na solidariedade e confraternização entre humanos e não humanos. Doravante, há dois caminhos possíveis: sobriedade e solidariedade ou… barbárie. Tudo indica que estamos a caminhar para a segunda opção, impulsionados pelas elites e poderes mundiais. É tempo de os cidadãos do mundo unirem forças e exigirem mudanças imediatas.


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