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Cuidar de alguém em fim de vida : como se alivia a dor ? – Observador
observador.pt
Published 1 day ago

Cuidar de alguém em fim de vida : como se alivia a dor ? – Observador

observador.pt · Feb 21, 2026 · Collected from GDELT

Summary

Published: 20260221T110000Z

Full Article

i ▲Médico de família na Unidade de Saúde Familiar Cova da Piedade, em Almada, João Dias Ferreira está a fazer um doutoramento na Escola Nacional de Saúde Pública com um projeto ambicioso: criar um programa nacional para os cuidados paliativos, baseado na evidência FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA ▲Médico de família na Unidade de Saúde Familiar Cova da Piedade, em Almada, João Dias Ferreira está a fazer um doutoramento na Escola Nacional de Saúde Pública com um projeto ambicioso: criar um programa nacional para os cuidados paliativos, baseado na evidência FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA Para o médico de família e paliativista João Dias Ferreira, o foco do trabalho está em cuidar da dor dos doentes. Em todas as dimensões e não apenas nos sintomas físicos. 21 fev. 2026, 10:01 Este artigo faz parte da série “O que eu aprendi com a dor dos outros”, um conjunto de reportagens escritas por um jornalista a partir de entrevistas com profissionais de saúde que acompanham doentes com dor crónica. No armário do meu gabinete tenho uma lanterna árabe que me foi oferecida por uma paciente. Conheci-a porque o marido tinha um cancro do pâncreas em estado muito avançado e foi referenciado para cuidados paliativos — demasiado tarde, infelizmente. No dia em que íamos fazer a primeira visita a casa, já no carro, a enfermeira telefonou para confirmar a hora. “Já vêm tarde”, disse a senhora a chorar quando atendeu. “O meu marido acabou de morrer.” Fomos na mesma. Tratámos da burocracia necessária e ficámos algum tempo a conversar com ela. Como não tinha médico de família e ia passar por uma fase muito difícil, inscrevi-a na minha lista – foi assim que se tornou minha paciente. Simpatizava muito com ela. Era uma pessoa boa, gentil e tínhamos uma relação muito calorosa. A certa altura, quando foi visitar um filho que vive no Qatar, trouxe-me esta lanterna. Em dezembro passado, depois de eu regressar de férias, soube que ela tinha morrido de uma doença súbita. Abalou-me muito. Para mim, a lanterna simboliza a luz que eu lhe trouxe e a luz que ela também me trouxe a mim. Conto esta história porque penso que diz muito sobre o tipo de relação que nasce da proximidade com a dor dos outros: eu ajudei-a a fazer o seu luto, depois tive de fazer o luto por ela. ▲ “Em cuidados paliativos é preciso ter uma sensibilidade que não se aprende. É possível ser bom cirurgião sem usar o lado mais humano, mas para ser paliativista não basta treino – tem de haver vocação” FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA Sou médico de família na Unidade de Saúde Familiar Cova da Piedade, em Almada, e trabalhei na Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos, onde acompanhei, em casa, pessoas com doenças graves e avançadas e as respetivas famílias. No centro de saúde, sigo pacientes com características muito diferentes, sendo que muitos deles são pessoas idosas, já com várias doenças crónicas. Na equipa, a maioria dos doentes são pessoas com doença oncológica avançada ou com doenças crónicas graves, como insuficiência cardíaca. "A dor não é só física. Não é apenas o que se sente no corpo. Tratar só sintomas físicos não é suficiente quando se cuida de alguém em fim de vida. A raiva e a tristeza por estar doente, a sensação de ser um fardo para os outros e as perguntas sobre o sentido da vida também são dimensões da dor." A generalidade das pessoas com necessidades paliativas prefere estar em casa e, do ponto de vista clínico, faz todo o sentido que estejam. Mas as maiores barreiras a ter um doente destes em casa não são clínicas, são sociais. Para o doente estar em casa, a habitação tem de ter condições adequadas e tem de haver um cuidador capaz. É aqui que geralmente começam os maiores problemas: há uma escassez enorme de apoios sociais, seja para melhorar as condições da habitação, fornecer produtos de apoio necessários ou permitir apoio ao cuidador que lhe permita manter a capacidade física e psicológica de cuidar. A assistente social que dá apoio à nossa equipa move mundos e fundos para tentar que o doente e o cuidador tenham tudo o que precisam, mas há muitas portas fechadas. “A dor é uma das queixas mais frequentes no consultório do médico de família” Ser médico foi um sonho de infância. Cresci em casa da minha avó Teresa, que morava mesmo ao lado do Centro de Saúde de Sintra, onde a minha tia trabalhava como administrativa. Depois das aulas, ia muitas vezes ter com a tia Isabel. Andava ali pelos corredores e, quando os médicos estavam sozinhos, entrava nos gabinetes e falava com eles. Às vezes, davam-me brindes deixados pelos delegados de informação médica. Lembro-me de receber um jogo de dados de uma marca de antibióticos. Aos 12 anos ia à biblioteca de Sintra para estudar e detinha-me em frente aos livros de medicina e anatomia, fascinado por aqueles temas. Depois, no fim do secundário, não consegui média para entrar no curso de medicina à primeira tentativa e tive de fazer melhoria de notas, ter explicações e estudar ainda mais. Foi um grande investimento pessoal. ▲ “Interessei-me pela dor no primeiro ano da especialidade em Medicina Geral e Familiar. É quase inevitável: a dor é uma das queixas mais frequentes das pessoas que batem à porta do médico de família” FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA Interessei-me pela dor logo no primeiro ano da especialidade em Medicina Geral e Familiar. É quase inevitável: a dor é uma das queixas mais frequentes das pessoas que vão bater à porta do médico de família. Considerei essencial ter formação nessa área, pelo que fiz um curso sobre dor crónica e comecei a ir a simpósios e palestras sobre dor, na expectativa de conseguir fazer diferença na qualidade de vida dos meus doentes. Tive uma orientadora que me ajudou a evoluir, sobretudo na prescrição de fármacos mais fortes, pouco habituais na prática corrente da medicina geral e familiar. À medida que comecei a usar esses medicamentos, os resultados tornaram-se evidentes. Havia pessoas com dores incapacitantes que, na consulta seguinte, regressavam visivelmente melhor. Nos cuidados paliativos, a minha madrinha é a Dra. Ana Bernardo, com quem fiz um estágio no Hospital da Arrábida, no terceiro ano da especialidade, e que me incentivou a fazer uma pós-graduação nesta área. Ela viu qualquer coisa em mim antes de eu próprio a ver. “João, tens muito jeito”, dizia-me. “Tens bom coração. Estás atento às pessoas. Consegues lidar com o sofrimento e dar esperança. Tens de ir treinar isso.” E eu fui. Concluí a pós-graduação em Cuidados Paliativos ainda antes de terminar a especialidade. "Gosto mais de pensar em pessoas do que em números, mas, para convencer quem decide a investir em cuidados paliativos, é preciso demonstrar as vantagens deste tipo de medicina. Além de esta ser mais adequada para muitos doentes, também é mais barata: tira pessoas das urgências e dos internamentos.” Depois comecei a trabalhar no centro de saúde da Cova da Piedade e fui um dos primeiros médicos da Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos, que entrou em funcionamento em julho de 2020. Como também havia crianças e adolescentes a precisar destes cuidados, no mesmo lugar — em casa — voltei a estudar e fiz uma pós-graduação em Cuidados Paliativos Pediátricos. Gosto mais de pensar em pessoas do que em números, mas, para convencer quem decide a investir em cuidados paliativos, é preciso demonstrar quais são as vantagens deste tipo de medicina. E a verdade é que, além de esta ser uma medicina mais adequada para muitos doentes, também é mais barata, na medida em que tira pessoas das urgências hospitalares e dos internamentos. Por isso, estou a estudar outra vez. Mantenho-me no centro de saúde, mas fiz uma pausa com médico da equipa comunitária, para ter tempo para fazer doutoramento na Escola Nacional de Saúde Pública com um projeto ambicioso: criar um programa nacional para os cuidados paliativos, baseado na evidência. “A dor não é apenas o que se sente no corpo” A dor não é só física. Não é apenas o que se sente no corpo. Tratar só os sintomas físicos nunca é suficiente quando se cuida de alguém em fim de vida. A raiva e a tristeza por estar doente, a sensação de ser um fardo para os outros e as perguntas sobre o sentido da vida também são dimensões da dor. Mesmo quando a dor física é tratada, a pessoa pode continuar a sofrer se estas outras dimensões não forem cuidadas. É por isso que, em cuidados paliativos, usamos o conceito de dor total, que, além dos aspetos físicos, engloba a dimensão emocional, social e espiritual. Para trabalhar em cuidados paliativos, é preciso ter uma sensibilidade que não se aprende: ou se tem ou não se tem. É possível ser um bom cirurgião sem usar muito o lado mais humano, mas, para ser paliativista e estabelecer uma relação com proximidade e profundidade, não basta o treino — tem de haver vocação. "É normal que estes doentes sintam um vazio, por isso é importante ajudá-los a recordar tudo o que já fizeram, a marca que deixam no mundo e, às vezes, as coisas que ainda podem fazer. Tudo isso alivia um pouco a dor da pessoa, porque a faz sentir-se digna." Quando a nossa disponibilidade emocional para o outro é pouca, não conseguimos ir ao cerne do que está realmente a afetar aquela pessoa e dar-lhe resposta. Claro que é exigente fazer isso continuamente e, no meu caso, para conseguir, há um trabalho que faço fora do trabalho: uma procura constante de desenvolvimento pessoal, através de psicoterapia, para aumentar a minha maturidade emocional e melhorar a capacidade de estar com o sofrimento do outro sem deixar que isso me destrua. Acho que essa foi uma das coisas que os meus doentes me ensinaram: que devo investir em ser um ser profissional e um ser humano cada vez melhor, para poder aprender com eles. Porque é preciso ter disponibilidade e abertura para isso. Caso contrário, não aprendemos nada. Temos de ter muitas conversas difíceis e dizer coisas que as pessoas não querem ouvir. Devemos ser muito empáticos, pacientes e gentis. Com pessoas que negam o diagnóstico ou a trajetó


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