
observador.pt · Feb 27, 2026 · Collected from GDELT
Published: 20260227T004500Z
A divulgação de milhões de imagens e documentos sobre o norte-americano Jeffrey Epstein, considerado um agressor sexual que montou uma rede de tráfico durante anos, abalou as elites de todo o mundo. Os chamados ficheiros Epstein, tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, expõem uma teia de contactos, favores e relações próximas entre o milionário e políticos, diplomatas, empresários, académicos e até membros da realeza. As revelações desencadearam detenções, demissões, afastamentos e pedidos públicos de desculpas. Quem foi detido? André Mountbatten‑Windsor O ex-príncipe britânico e irmão do Rei Carlos III foi um dos nomes que mais polémica gerou com a divulgação dos ficheiros. Depois de anos de escrutínio e de uma ação legal, André foi detido no dia 19 de fevereiro por suspeita de má conduta no exercício de cargo público, associada à partilha de documentos confidenciais. Foi libertado após cerca de 11 horas de interrogatório, sob fiança, e continua sob investigação. Mas insiste em negar qualquer irregularidade. No dia 9 de fevereiro, a polícia de Thames Valley já tinha informado que estava a analisar as alegações de que André passou informações confidenciais a Jeffrey Epstein quando ocupou o cargo de Representante Especial do Reino Unido para o Comércio e Investimento Internacional, entre 2001 e 2011, com base nos documentos recentemente divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano. Nessa altura, o filho de Isabel II viajou em nome do Governo britânico para vários países e esteve em contacto direto com membros seniores de governos. De acordo com o que o Departamento de Negócios e Comércio disse à BBC, o antigo duque de Iorque não atuava sob as mesmas regras que agora se aplicam aos enviados comerciais.André Mountbatten-Windsor: um aniversário na esquadra, a postura “business as usual” da realeza e o que acontece agoraEntre os ficheiros estão e-mails encaminhados por André a Epstein com detalhes das suas viagens oficiais como enviado comercial do Reino Unido. Em novembro de 2010, por exemplo, o ex-príncipe demorou apenas cinco minutos para encaminhar ao criminoso sexual um relatório enviado pelo seu assistente especial, Amit Patel, acerca das discussões realizadas durante visitas a Hong Kong, Singapura, Vietname e China. ▲ André é suspeito de má conduta no exercício de cargos públicos Julien Warnand/EPA Foi também nesta altura que André e Epstein terão planeado abrir um negócio na China que usaria a “aura e acesso” do então príncipe para chegar a uma “rede global incomparável”. O filho de Isabel II terá inclusive usado uma das viagens oficiais como enviado especial do Governo britânico para reunir com Jes Staley, antigo CEO do banco Barclays, que na altura era um dos principais executivos da JP Morgan e uma figura próxima de Epstein.Quer Carlos III, o rei, quer William, o primeiro na linha de sucessão, se mostraram disponíveis para ajudar a investigação. DEpois de, num primeiro momento, lhe serem retirados os títulos reais, André foi expulso de Royal Lodge, a residência da família real que lhe estava destinada. E pode também vir a ser chamado pela justiça dos EUA. Peter Mandelson Peter Mandelson, o ex-embaixador britânico nos Estados Unidos escolhido pelo primeiro-ministro Keir Starmer, foi detido na sua casa de Camden, em Londres, tendo depois sido libertado mediante a prestação de uma caução. As autoridades britânicas anunciaram, a 23 de fevereiro, a sua detenção sob suspeita de conduta imprópria no exercício de funções públicas depois de os ficheiros mostrarem e-mails em que Mandelson partilhava informações sensíveis com Jeffrey Epstein. Entre esses documentos, aparecem e-mails que indicam que Mandelson teria encaminhado informações confidenciais e potencialmente capazes de influenciar os mercados financeiros ao amigo em 2009, quando era ministro da Economia. ▲ Antigo embaixador dos EUA partilhava informações sensíveis com Jeffrey Epstein FACUNDO ARRIZABALAGA/EPA Os documentos também incluem registos de transferências de cerca de 75 mil dólares (cerca de 64 mil euros), entre 2003 e 2004, de contas associadas a Epstein para contas ligadas a Mandelson ou ao marido, Reinaldo Ávila da Silva.Caso Epstein. Foi libertado sob caução Peter Mandelson, ex-ministro trabalhista e antigo aliado de Starmer A nomeação do embaixador causou polémica no Reino Unido. Alegadamente, o primeiro-ministro britânico teria sabido de antemão das ligações a Epstein antes de nomear o principal representante diplomático britânico nos Estados Unidos. Mesmo assim, Keir Starmer teria avançado com a decisão, o que tem motivado várias críticas por parte da oposição britânica e pedidos para que deixe a liderança do Governo.Em setembro de 2025, Mandelson foi afastado do cargo de embaixador em Washington e demitido da Câmara dos Lordes e do Partido Trabalhista. Embora tenha sido libertado sob fiança e rejeitado qualquer ilegalidade, a investigação criminal prossegue.Os investigados pela justiça Thorbjørn Jagland O antigo primeiro‑ministro da Noruega e ex‑secretário-geral do Conselho da Europa foi formalmente acusado de “corrupção agravada” após buscas domiciliárias relacionadas com as suas ligações a Epstein. “Acreditamos que existem motivos razoáveis para a investigação“, assinalou num comunicado o diretor da unidade de crimes económicos do Ministério Público (Okakrim), Pal K. Lonseth, citado pela agência de notícias espanhola EFE. Lonseth sublinhou que Jagland “ocupou as posições de líder do Comité Nobel e de secretário-geral do Conselho da Europa durante o período abrangido pelos documentos revelados”.Segundo esses documentos, Epstein e Jagland mantiveram contactos entre 2014 e 2018 e discutiram um investimento imobiliário conjunto. O político norueguês chegou a planear uma viagem à ilha do milionário nas Caraíbas, que acabou por não se realizar.Num e-mail datado de 2014, Jagland pediu ajuda a Epstein para financiar um apartamento em Oslo. Já em 2018, o empresário pediu ao norueguês que arranjasse um encontro entre ele e o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, dizendo que tinha informações importantes para oferecer ao Presidente da Rússia, Vladimir Putin.Jagland, que já no passado tinha reconhecido a relação com Epstein, embora não de forma tão extensa nem prolongada, admitiu o “erro de julgamento“. Segundo referiu, os contactos não estavam relacionados com a vida privada do milionário condenado por pedofilia. ▲ Em 2014, Jagland terá pedido ajuda a Epstein para financiar um apartamento em Oslo YOAN VALAT/EPA A justiça norueguesa está a investigar se Jagland recebeu “presentes, viagens e empréstimos” devido às funções. Esta investigação foi possível depois de o Conselho da Europa ter anunciado que, em resposta às autoridades de Oslo, iria levantar a imunidade parlamentar de que gozava o seu antigo secretário-geral.O advogado de Jagland, Anders Brosveet, reagiu ao anúncio do diretor da Okakrim afirmando que o ex-primeiro-ministro está tranquilo e vai colaborar na investigação. “É bom para Jagland receber um esclarecimento oficial da Okokrim, em vez de ter toda a imprensa a conduzir as próprias pequenas investigações privadas”, disse Brosveet à agência France-Presse (AFP). Jagland, de 75 anos, foi líder do Partido Trabalhista (1992-2002), primeiro-ministro (1996-1997), ministro dos Negócios Estrangeiros (2000-2001), presidente do parlamento (2005-2009), presidente do Comité Nobel Norueguês (2009-2015) e presidente do Conselho da Europa (2009-2019). Mona Juul e Terje Rød‑Larsen A diplomata norueguesa Mona Juul renunciou ao cargo de embaixadora na Jordânia e no Iraque após a revelação de que, juntamente com o marido, o também diplomata Terje Rød‑Larsen, mantinha contactos com Epstein e se encontrava agora sob investigação por alegada corrupção agravada.Num comunicado, citado pelo The Guardian, o Ministério dos Negócios Estrangeiros norueguês esclareceu que a investigação interna aberta no final de janeiro deste ano continua em curso, mas admite que houve um “grave erro de julgamento” sublinhando que será difícil restabelecer a confiança necessária para que Juul se mantivesse em funções diplomáticas.“É evidente que todo este caso representa um problema de reputação para a Noruega, e não apenas para a sua diplomacia. Todos devem encará-lo com a máxima seriedade”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Espen Barth Eide, em declarações à emissora pública NRK.Segundo Thomas Skjelbred, advogado da diplomata, foi a própria quem solicitou a renúncia. “A questão fundamental é que a sua situação atual a impede de exercer funções. Isso tem sido um enorme fardo para ela e para a sua família”, afirmou, também à NRK.Juul sublinhou, entretanto, que a sua relação com Epstein foi “imprecisa” e originada através do marido, rejeitando uma relação social ou profissional direta com o milionário. Rød‑Larsen, por seu lado, declarou‑se confiante de que acabaria por ser considerado inocente, embora as autoridades continuem a investigação.De Larry Summers a Sarah Ferguson: as demissões pós-divulgação dos ficheiros Thomas Pritzker Pritzker, bilionário e chairman executivo da Hyatt Hotels desde 2004, anunciou, na semana passada, a saída da liderança do grupo hoteleiro após a divulgação dos ficheiros. De acordo com a BBC, as comunicações agora públicas mostram que Pritzker manteve uma longa ligação com Jeffrey Epstein e com Ghislaine Maxwell — companheira e cúmplice do empresário norte-americano —, mesmo depois da condenação de Epstein por crimes sexuais, em 2008. ▲ Chairman executivo da Hyatt Hotels diz que "não há desculpa" para não se ter distanciado mais cedo de Epstein Bloomberg via Getty Images Pritzker afirmou, em comunicado citado pelo mesmo jornal, que decidiu deixar o cargo e que não se recandidataria, sublinhando que se arrepende da ligação que manteve com Epstein. “O meu trabalho e responsabilidade é proporcionar uma boa gestão. Uma boa gestão inclui garantir uma transição adequada na Hyatt”, disse.“Uma