
estadao.com.br · Feb 27, 2026 · Collected from GDELT
Published: 20260227T151500Z
A prefeitura de Urupês, a 415 km de São Paulo, anunciou que vai usar tirzepatida (patenteada sob a marca Mounjaro) para tratamento gratuito de obesidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Trata-se da primeira cidade paulista a oferecer o tratamento na rede pública.PUBLICIDADESegundo a administração municipal, o tratamento será acompanhado por uma equipe médica multidisciplinar, composta por endocrinologista, nutricionista, psicólogo, educador físico e assistente social. Os resultados da política serão mensurados considerando a evolução dos pacientes, por meio das análises de peso, índice de massa corporal (IMC), adipômetro e exames laboratoriais, além da redução de medicamentos para outras doenças associadas à obesidade e mudanças na qualidade de vida e autoestima. A previsão é que 200 pacientes com obesidade sejam atendidos. Inicialmente, serão selecionados os indivíduos na fila de espera para cirurgia bariátrica e em vulnerabilidade social (inscritos no CadÚnico), incapazes de custear o medicamento. PublicidadeAlém disso, será preciso possuir tentativa prévia documentada de tratamento não farmacológico por período mínimo de seis meses. Apresentar comorbidades (como hipertensão e diabetes) será critério para priorização. Urupês é a primeira cidade no interior de SP a oferecer a tirzepatida no sistema público de saúde. Foto: Kassandra/Adobe Stock“Nós identificamos a necessidade de uma ferramenta adjuvante aos pacientes que estão em busca de perda de peso. A obesidade é uma epidemia, nos preocupa muito, trazendo consequências danosas, inúmeras comorbidades. Então começamos um estudo para determinar os pacientes que poderiam adotar o protocolo e aqueles que teriam contraindicação absoluta”, diz o prefeito e médico Roberto Cacciari Filho (PL). O medicamento será aplicado na unidade de saúde e deverá estar associado a mudanças no estilo de vida e acompanhamento contínuo. “Com o uso do medicamento em conjunto com nutricionista, educador físico, psicólogo, assistente social e endocrinologista, nós conseguimos traçar um plano terapêutico em que, na verdade, a tirzepatida é uma das ferramentas adotadas para que os pacientes tenham sucesso terapêutico”, destaca o prefeito. PublicidadeMesmo nos casos em que não houver indicação para uso do fármaco, os usuários continuarão em acompanhamento com orientações sobre alimentação, atividade física e suporte psicológico, informa a prefeitura.A ideia do município é “adotar uma estratégia de resultado para obesidade” e evitar gastos futuros, segundo Cacciari. A expectativa é que a medida contribua para a prevenção de diversas doenças que têm a obesidade como causa e, em última instância, reduzir a fila para cirurgia bariátrica.“Eu tenho a esperança de que, depois, a gente possa ampliar para além dessa faixa de pacientes vulneráveis, incluindo também a classe C. Porque eu imagino que (a tirzepatida) tende a ter um preço cada vez mais acessível. Então o programa veio para ficar, não são só esses 200″, afirma. Tempo de tratamentoA tirzepatida é um medicamento injetável indicado para diabetes e obesidade. O fármaco atua em hormônios ligados ao apetite e ao metabolismo (controle glicêmico), contribuindo para redução de peso quando associado a mudanças comportamentais e acompanhamento médico.PublicidadePUBLICIDADEEm Urupês, o tratamento com o medicamento está previsto para durar de quatro a seis meses. No entanto, especialistas explicam que, como a obesidade é uma doença crônica, na maioria dos casos não é possível interromper o uso do remédio - caso contrário, há grandes riscos de reganho do peso.“Aqueles que precisarem manter o tratamento, que eu tenho convicção de que é dose de manutenção, nós vamos conseguir (arcar)“, diz o prefeito. Para ele, a política deve influenciar outros municípios a implementar soluções semelhantes — Cacciari afirma que vários prefeitos já entraram em contato para pedir orientações.LicitaçãoA prefeitura de Urupês considera dar início ao programa usando canetas de tirzepatida vendidas por uma farmácia de manipulação. Diferentemente da semaglutida (princípio do Ozempic e do Wegovy), que não pode ser manipulada, há uma brecha na regulamentação da Anvisa que permite a manipulação da tirzepatida, do Mounjaro.A farmacêutica Eli Lilly já se pronunciou classificando a permissão como “uma contradição que continua expondo a população brasileira a riscos desnecessários”. A norma permitiu o estabelecimento de um mercado paralelo da tirzepatida. Há casos de medicações sem procedência e relatos de canetas que não possuíam tirzepatida, mas outras substâncias.PublicidadeLeia tambémMédicos e farmácias criam mercado paralelo de Mounjaro; ‘Crime sanitário’, dizem especialistasanetas emagrecedoras: "Mais preocupante do que o risco de pancreatite, é a manipulação destas medicações", revela especialistaEm tese, as farmácias de manipulação existem para atender necessidades específicas de pacientes que não se adaptam às doses disponíveis nas farmácias. Mas, na prática, o que se desenha é uma produção em larga escala com preços mais baratos, sem objetivo de complementar a oferta da indústria.A prefeitura de Urupês abriu uma licitação para escolher a empresa que irá fornecer as canetas e não informou se a Eli Lilly (fabricante que detém a patente do Mounjaro) está entre as participantes do certame, que ainda não foi encerrado. O prefeito afirma que a licitação exige que as farmácias de manipulação sigam as nomas da Anvisa para a produção das canetas.