
correiodopovo.com.br · Feb 23, 2026 · Collected from GDELT
Published: 20260223T203000Z
Nas últimas semanas, a polilaminina, molécula desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para tratar lesões medulares, ganhou destaque na mÃdia e nas redes sociais. Cientistas, no entanto, pedem cautela e alertam para o risco de se confundir uma pesquisa ainda em fase experimental com um medicamento de aplicação clÃnica já consolidado. Editorial conjunto aborda desafios Em um editorial conjunto no Jornal da Ciência, Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e Helena Bonciani Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), afirmam que o caso da polilaminina "ganhou projeção no debate público brasileiro não apenas por sua dimensão cientÃfica, mas também por suas implicações institucionais, regulatórias e de polÃtica de inovação". Para elas, a trajetória da pesquisa revela tensões do sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação, especialmente em temas como propriedade intelectual, validação cientÃfica, comunicação com o público e a conexão entre produção cientÃfica e polÃticas de saúde. Cautela sobre resultados de pesquisa Em janeiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o inÃcio de testes clÃnicos para avaliar a segurança da molécula. A medida gerou repercussão e foi sucedida por pedidos de acesso à polilaminina por via judicial. Nesse sentido, o editorial faz um alerta sobre as expectativas exageradas em torno de uma tecnologia que ainda está em fase experimental. As cientistas destacam que "em áreas como neuroregeneração, o percurso entre descoberta cientÃfica, validação pré-clÃnica, ensaios clÃnicos e eventual incorporação tecnológica é necessariamente longo, complexo e dependente de evidências acumulativas". Veja Também- Hospital de ClÃnicas atinge a marca de 20 mil exames cariótipos de sangue periférico- HPS de Porto Alegre alerta para estoque crÃtico de sangue Controvérsias e avaliação cientÃfica "Nesse contexto, controvérsias cientÃficas e institucionais não devem ser tratadas como anomalias, mas como parte inerente do funcionamento do sistema cientÃfico. Divergências metodológicas, questionamentos sobre evidências, debates sobre protocolos experimentais e discussões sobre validação são inerentes ao processo cientÃfico, especialmente em áreas inovadoras e de alta complexidade. O que o caso revela é a necessidade de fortalecer os mecanismos institucionais de avaliação cientÃfica, revisão por pares, transparência metodológica e governança da pesquisa, evitando que disputas cientÃficas migrem prematuramente para arenas midiáticas ou judiciais sem a devida mediação técnico-cientÃfica", escrevem as pesquisadoras. Comunicação e medicina translacional Elas também defendem que é preciso deixar mais clara a diferença entre pesquisa básica, evidências já consolidadas e aplicação clÃnica, e que há uma responsabilidade direta na forma como essas informações são comunicadas ao público, para evitar confusões ou interpretações equivocadas. O editorial enfatiza ainda a necessidade de fortalecimento da medicina translacional, afirmando que, por mais que o Brasil tenha tradição na pesquisa básica, ainda carece de mecanismos que integrem universidades, hospitais e outras instituições. "Mais do que uma controvérsia cientÃfica especÃfica, a trajetória da polilaminina revela virtudes e fragilidades estruturais do modelo brasileiro de inovação em saúde. Entre as virtudes, destacam-se a capacidade cientÃfica instalada, o protagonismo das instituições públicas de pesquisa e o avanço institucional na proteção do conhecimento. Entre as fragilidades, evidenciam-se os desafios na validação clÃnica, na gestão estratégica da propriedade intelectual, na comunicação cientÃfica e na articulação entre ciência, regulação e inovação produtiva", diz o editorial. saúde ufrj poliaminina estudo