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oglobo.globo.com · Feb 27, 2026 · Collected from GDELT
Published: 20260227T093000Z
O Brasil já viveu esse filme. E parece disposto a repeti-lo. Surge uma molécula promissora nos laboratórios universitários. A descoberta ganha projeção pública. A esperança cresce, especialmente entre pacientes que enfrentam doenças graves. Rapidamente, o debate sai do campo científico e migra para redes sociais, tribunais e palanques. A etapa essencial, provar que funciona, fica em segundo plano. A discussão em torno da polilaminina precisa ser tratada com serenidade e responsabilidade. Ela nasce na universidade pública brasileira, o que merece reconhecimento. O Brasil tem ciência de qualidade. Nossas universidades são o motor da inovação biomédica nacional. É ali que se produz conhecimento original, que se formam pesquisadores e que se constrói soberania científica. Mas há uma diferença decisiva entre pesquisa promissora e tratamento comprovado. Em áreas como neuroregeneração, o caminho entre uma descoberta laboratorial e um medicamento disponível ao paciente é longo. Exige estudos pré-clínicos, ensaios clínicos controlados, comparação com placebo ou tratamento padrão, análise estatística rigorosa e monitoramento de segurança. Não se trata de burocracia. Trata-se de proteger pessoas. Nesse processo, o papel das instituições é decisivo. A Anvisa não é um obstáculo à inovação; é a guardiã da segurança sanitária. Cabe a ela avaliar qualidade, eficácia e segurança com base em dados consistentes antes de conceder registro a qualquer medicamento ou terapia. Já a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) cumpre outra função igualmente essencial: avaliar, após o registro, se aquela tecnologia deve ou não ser incorporada ao SUS, considerando evidência clínica, custo-efetividade e impacto orçamentário. São etapas complementares. Primeiro, comprova-se que funciona e é segura; depois, decide-se se deve ser ofertada amplamente à população. Esse arranjo protege tanto o paciente quanto o sistema de saúde. Entre a pesquisa inicial no laboratório e a incorporação no sistema público existe um percurso estruturado: fases pré-clínicas, ensaios clínicos em fases I, II e III, submissão regulatória, registro sanitário e avaliação de tecnologia em saúde. É justamente essa arquitetura institucional; ciência acadêmica forte, regulação técnica independente e avaliação transparente, que caracteriza um sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação robusto, ético e comprometido com o interesse público. Fragilizar qualquer uma dessas etapas não acelera o progresso; apenas aumenta o risco. O Brasil precisa fortalecer esse ecossistema, não contorná-lo. A medicina moderna é construída sobre estudos controlados justamente porque a percepção individual pode enganar. Melhoras espontâneas acontecem. Doenças evoluem de forma variável. O efeito placebo é real. Só protocolos metodologicamente sólidos conseguem demonstrar se uma intervenção é realmente eficaz e segura. Ignorar essa etapa é abandonar o método que sustenta a própria medicina. O Brasil já enfrentou episódios semelhantes. A cloroquina foi defendida como solução contra a Covid-19 antes da consolidação das evidências. Posteriormente, grandes estudos clínicos demonstraram ausência de benefício relevante no tratamento da doença, além de riscos conhecidos, como arritmias cardíacas. O resultado foi polarização, desgaste institucional e exposição desnecessária de pacientes. Antes disso, a chamada “pílula do câncer”, a fosfoetanolamina sintética, também foi celebrada como esperança nacional. Judicializada, distribuída sob forte comoção social, acabou não demonstrando benefício clínico consistente quando submetida a estudos controlados. A ciência precisou reafirmar o óbvio: intenção não substitui evidência. Esses episódios não são meras controvérsias. São lições institucionais. A comunicação científica adequada é parte essencial da responsabilidade em saúde. É legítimo afirmar que uma pesquisa é promissora em laboratório. Não é legítimo apresentá-la como terapia eficaz antes da comprovação clínica. Quando essa fronteira se dissolve, cria-se uma expectativa que pode ser cruel para quem mais precisa. Cautela não é frieza. É respeito ao paciente. Judicializar tecnologias experimentais fragiliza o sistema regulatório e cria precedentes perigosos. O Judiciário não substitui agências sanitárias. A opinião pública não substitui revisão por pares. A ciência não pode ser acelerada por aplausos. Isso não significa desvalorizar a inovação. Pelo contrário. Países que lideram a biotecnologia mundial constroem seus avanços sobre universidades fortes, proteção intelectual estruturada e agências reguladoras técnicas. As vacinas de RNA mensageiro não surgiram por pressão social, mas por décadas de pesquisa básica seguida de validação rigorosa. O Brasil tem capacidade científica instalada. Tem pesquisadores talentosos. Tem universidades públicas que são patrimônio nacional. O que precisamos fortalecer é a etapa da validação clínica, a integração entre pesquisa, hospitais, indústria e regulação. Se a polilaminina tem potencial, que seja estudada com rigor. Se for eficaz, que os dados demonstrem. Se for segura, que as evidências sustentem. Inovação verdadeira não teme o escrutínio científico, depende dele. O país que deseja protagonismo em saúde não pode escolher atalhos. Porque, em medicina, a pressa não salva. Quem salva é a evidência.